3 jogos clássicos de terror para o Atari 2600

Se você é um apaixonado pela Atari, por seus jogos e sua História, ou simplesmente se interessa pela evolução dos videogames, especialmente em se tratando de jogos de Terror, aqui vão alguns exemplos de lançamentos que fizeram a cabeça dos gamers na década de 1980. Uma época em que as capas dos cartuchos e as suas descrições nos manuais desempenhavam um papel fundamental para atiçar os jogadores.

São os primórdios dos videogames, período em que sabidamente em muitos jogos do console Atari 2600, e outros concorrentes similares, boa parte da emoção era criada pela própria imaginação dos seus jogadores, que precisavam preencher diversas lacunas que a tecnologia ainda não supria da maneira que o faz hoje; os jogos exigiam outros tipos de habilidades por parte de quem os jogava.

Muitos dos jogos de Terror dessas plataformas se jogados hoje em dia deixam de provocar sustos para provocar risos em seus jogadores; mas todos ainda merecem uma espiada. E se eles mantém por trás dos seus lançamentos histórias interessantes a serem lembradas, alguns ainda podem surpreender. Porque, assim como nos filmes de Terror, jogos que provocam gargalhadas em alguns, gelam as espinhas de outros.

Haunted House

Lançado no ano de 1981, Haunted House foi desenvolvido diretamente pela Atari, com uma estrutura bastante similar à do clássico Adventure, que havia sido lançado em 1979. Adventure, por si só, é um jogo que também pode ser considerado de Terror. Muitos dos aficionados pela Atari já tomaram grandes sustos controlando apenas um quadradinho através de labirintos e castelos e que, no descuido, era engolido por dragões malditos que surgiam do nada.

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Imagem: Equipe Pipoca com Sangue – Stella 4.6.7 – stella.sourceforge.net

Já em Haunted House seu manual de jogo apresentava a seguinte trama:

Há muitos anos atrás na pequena cidade de Spirit Bay vivia um velho homem mesquinho chamado Zachary Graves. […] Quando ele morreu sua casa foi condenada e lacrada.

Os moradores da cidade afirmam que o velho Graves sabia do paradeiro de uma urna mágica que era uma relíquia de família da primeira família de Spirit Bay. Parece que a […] urna mágica, que se quebrou em diversos pedaços durante o terremoto de 1890, ainda está na velha casa.

Você é um explorador, ou bisbilhoteiro, com o objetivo de encontrar as três peças da tal urna mágica e levá-las para a entrada principal da mansão. Para evitar o breu da casa e visualizar as tão desejadas peças o jogador conta apenas com palitos de fósforo para iluminar parte do que vê. Escondidos na escuridão do local estão morcegos, tarântulas e o fantasma do próprio velho Graves. Fuja deles!

A mansão Graves é dividida em quatro pavimentos ligados entre si por escadarias. E em cada um dos andares as portas entre os cômodos podem ser acessadas através de uma chave-mestra. O jogador também pode capturar um antigo cetro pertencente a Zachary Graves e se tornar invisível aos aterradores seres que o perseguem.

Sua pontuação é calculada de acordo com o número de palitos de fósforos usados durante essa busca e pelo número de vidas usadas pelo personagem. Ao final de cada etapa – quando se consegue levar a urna completa para e entrada da casa – menos palitos usados e menos vidas perdidas computam mais pontos para o jogador.

Fugindo da regra comum dos personagens com três vidas iniciais nos jogos eletrônicos, inclusive em muitos dos atuais, o personagem de Haunted House inicia a sua aventura com nove vidas, como um gato (um gato norte-americano, pois o gato brazuca tem sete, como sabemos). E se em Adventure o avatar do jogador é representado por um mero quadradinho, em Haunted House ele é representado por dois quadradinhos; dois pequenos olhos, sem cabeça ou corpo.

Aqui os seus desenvolvedores precisaram trabalhar com as limitadas ferramentas disponíveis, chegando à figura dos dois pequenos olhos que se movem, para representar o personagem principal do jogo. Incrivelmente parecidos com personagens de desenhos animados que se encontram em uma completa escuridão, tendo que se safar de algum perigo, essa solução para a questão se resolve de maneira bastante curiosa e criativa.

E entre inúmeros jogos chamados Haunted House lançados para diversas plataformas nas últimas décadas, o jogo para Atari 2600 se tornou o mais conhecido entre eles, criando a fama entre muitos Ataristas de ser o melhor jogo de Terror lançado para o console. E isso se deve muito à diversidade de opções que o jogador tem em suas mãos para conquistar os seus objetivos.

The Texas Chainsaw Massacre

Através do longa-metragem The Texas Chainsaw Massacre, de 1974, foi revalada ao mundo a figura do apavorante Leatherface e sua bizarra família de “açougueiros”. Filme que se tornaria um Cult ao longo dos anos, gerando inúmeras releituras. E não demorou muito para que a indústria dos jogos eletrônicos, no início da sua expansão, se beneficiasse do seu sucesso.

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Imagem: Equipe Pipoca com Sangue – Stella 4.6.7 – stella.sourceforge.net

Criado pela empresa Wizard Video Games, uma distribuidora de filmes e desenvolvedora de jogos eletrônicos parceira da Atari, o jogo de ação The Texas Chainsaw Massacre foi lançado em 1983. E a maior atração do seu lançamento era o fato de que o jogador podia controlar o vilão da história, algo raríssimo em jogos de “mocinho e bandido” naquela época.

De acordo com o manual do jogo:

Agarre o seu joystick e torne-se Leatherface, o homicida maníaco dos seus pesadelos, empunhando uma serra-elétrica. Um grupo de desafortunados turistas invadiu a sua propriedade. Um por um eles foram caçados e eliminados. Agora só resta um punhado deles. Portanto, lubrifique a sua serra-elétrica e encontre tantas vítimas quanto você puder antes que o seu combustível acabe.

E aqui era pra começar a diversão ilimitada. O objetivo do jogo é simples: eliminar o máximo de vítimas antes que a sua serra-elétrica fique sem combustível. Mas o que era pra se tornar o maior trunfo do jogo acabou sendo a sua maior desgraça. Devido ao seu pressuposto apelo à violência gratuita e ao já citado fato de o jogador controlar o matador da história, e não a vítima, o jogo acabou sendo pouco divulgado.

Muitos outros títulos na história da indústria dos jogos eletrônicos tiveram enredos semelhantes: alguém “matando” alguém, ou alguma coisa. Até aí nenhuma novidade. Mas o que fez The Texas Chainsaw Massacre ficar estigmatizado por esse detalhe é o fato de que esse jogo se resumia unicamente a isso: desviar Leatherface dos obstáculos e trucidar as suas vítimas. O que não causou uma impressão muito positiva nos pais da garotada.

E mais duas curiosidades bizarras: quando Leatherface consegue atingir uma de suas vítimas, ela acaba se transformando em uma “massaroca” de “sei lá o quê” na tela, lembrando um corpo desfigurado grotesco. E outro detalhe é a maneira como o jogo se encerra: quando o último dos três tanques de combustível da sua serra acaba um dos sobreviventes retorna pra chutar Leatherface no traseiro. Não deixa de ser estranhamente engraçado.

Já em termos gráficos esta adaptação deixou muito a desejar, mesmo para os padrões da época, visto que aquela figurinha que aparece na tela do jogo em absolutamente nada se parece com o original Leatherface, e que a sua “ferramenta de trabalho” pouco – ou quase nada – lembra uma motosserra.

Convenhamos, se Michael Myers ou Jason Voorhees são representados em um jogo para Atari 2600 como uma figura com algo que vagamente lembra uma faca ou facão nas mãos, tudo bem. Mas quando um personagem chamado Cara de Couro, que mutila as pessoas com uma serra-elétrica, é apresentado, a primeira coisa que os jogadores procuram é ver se o seu rosto e a sua arma ficaram minimamente bem representados.

Outra situação que se tornou uma pérola, dessa vez para os caçadores de relíquias atuais, foi quando a Wizard Video Games estava vendendo as últimas unidades dos seus jogos, em uma tentativa de sair de uma situação de crise. As vendas do cartucho de The Texas Chainsaw Massacre foram feitas com a capa do jogo totalmente crua, e uma simples tarja adesiva com o nome do jogo escrito a mão, para minimizar custos, fazendo o original do cartucho parecer uma cópia pirata de si mesmo. Boas histórias pra se contar de um jogo que prometia muito, mas que ficou pelo caminho.

Halloween

Outro jogo que embarcou na onda dos filmes de sucesso. E outro jogo da parceira da Atari, Wizard Video Games, lançado em 1983. Devido, porém, às limitações tecnológicas dos jogos dessa época poucas referências ao filme original são transportadas fielmente ao jogo. A mais significativa pode ser destacada como a música original do filme, que realça a presença do assassino Michael Myers nas cenas; música-tema magistral composta por John Carpenter, também diretor do longa-metragem.

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Imagem: Equipe Pipoca com Sangue – Stella 4.6.7 – stella.sourceforge.net

Vejam a descrição contida no manual original do jogo:

Um maníaco homicida escapou de uma instituição para doentes mentais. Na noite de Halloween o matador volta para a sua cidade natal para causar estragos. Você está de babá para uma família em uma grande casa de dois andares. De alguma maneira o vingativo assassino entrou na casa. Você consegue proteger as crianças e a si próprio da fúria da sua faca?

Através do seu avatar, a babá, o jogador transita pelo interior de uma residência de dois andares, e 16 salas, à procura de crianças indefesas que fogem de um maníaco que as persegue com uma faca na mão. “Agarre” as crianças e as leve para uma sala segura antes que o assassino o alcance; se isso acontecer ele irá trucidar a criança e arrancar a cabeça da babá (Halloween é considerado o primeiro jogo a apresentar uma cena de decapitação).

Salvando cada criança o jogador consegue 675 pontos. (Por quê esse número quebrado?). E para proteger a babá procure por uma faca perdida pela casa, ela pode ser bastante útil. A cada estocada em Michael Myers lhe serão dados mais 325 pontos (Que somados ao salvamento de cada criança dão o valor 1000 redondo. Continua não fazendo sentido). Esfaqueando o matador duas vezes ou regastando cinco pirralhos avançam o jogador de fase.

Um detalhe significativo que desapontou muitos dos jogadores de Halloween: tendo sido desenvolvido pela mesma Wizard Video Games que criara o jogo The Texas Chainsaw Massacre, aqui o personagem controlado, como já citado, não é o matador da história, o anti-heroi, e sim a babá que deve salvar as criancinhas. Mórbida decepção, mas ainda assim uma decepção, para a maioria dos jogadores que se divertia na pele de Leatherface.

Outros inúmeros detalhes do lançamento de Halloween para o Atari 2600 não passam desapercebidos aos olhos dos amantes do console. Como, por exemplo, o fato de que o seu manual faz referências diretas a vários acontecimentos do filme, mas sem “dar nome aos bois”; ele não cita as personagens Laurie Strode, nem tampouco Michael Myers; provavelmente devido a questões de direitos autorais.

Com as últimas vendas de Halloween – o jogo – também aconteceu o mesmo que com as de The Texas Chainsaw Massacre, com uma tarja adesiva contendo apenas o nome do jogo. Mas dessa vez houve um “cuidado especial” por parte da Wizard Video Games: o nome Halloween, também escrito a mão no mesmo tipo de etiqueta adesiva, era feito na cor abóbora. Mesmo reduzindo custos para distribuir o jogo a empresa ainda conseguiu dar seu toque único.

Já no Brasil o jogo recebeu o nome de Sexta-Feira 13, provavelmente devido ao fato de que na época a festa do Halloween não era tão comemorada por aqui quanto hoje; especialmente pela sua difusão através de escolas da Língua Inglesa. Portanto, para quem cresceu na década de 80, não se chateie se você passou boa parte da sua vida achando que aquela figurinha estranha com uma baita faca na mão era o Jason Voorhees, quando na verdade ela era o Sr. Michael Myers.

Sobre o Autor

Titi Gomez Já estive atendente de vídeo-locadora, ator, educador de uma creche, escritor, barman... Sou chegado em trecos DIY e tattoos... Go Vegan!

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