A mente brilhante de José Mojica Marins, o Zé do Caixão

Traçar um perfil de um dos maiores nomes do Terror do Cinema escrevendo que, pra começar, ele nascera em uma sexta-feira 13, torna este pequeno texto muito mais sugestivo. Outro detalhe que faz de José Mojica Marins uma figura única no cenário das Artes é o fato de que ele está irremediavelmente ligado ao seu alter-ego Zé do Caixão, como provavelmente nenhum outro artista contemporâneo.

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Mas quanto a isso muito cuidado! Segundo palavras da sua própria mãe, D. Carmem Marins, no documentário O Universo de Mojica Marins, dirigido por Ivan Cardoso em 1978: “O Zé do Caixão é perverso; o meu filho não é, porque ele não é o Zé do Caixão, ele é o José Mojica Marins!” E muita gente acaba se esquecendo disso.

O contato de Mojica com a Sétima Arte se deu quando ele ainda não tinha nem cinco anos de idade através do cinema gerenciado por seu pai, o Sr. Antônio Marins, e em cuja bombonière sua mãe trabalhava. A família também morava nos fundos do local, onde seu filho único respirava Cinema o tempo todo.

Apesar de ser internacionalmente reconhecido como um mestre do gênero Terror os seus primeiros trabalhos foram dedicados a Westerns (os nossos Bangue-bangues), Dramas e Aventuras; alguns deles mudos. Após transformar um antigo galinheiro em estúdio e convocar vizinhos do bairro onde morava para fazer parte da sua equipe, Mojica faz seus primeiros experimentos ainda na década de 1940.

Em 1964 lança o filme À Meia-Noite Levarei Sua Alma, o primeiro longa-metragem brasileiro de Terror, e a primeira aparição do personagem Zé do Caixão. Segundo Mojica esse personagem – ao qual ele chamou Josefel Zanatas – aparecera para ele em um pesadelo, até certo ponto doentio. Tal figura o teria arrastado para dentro de um cemitério e o deixado em frente a uma lápide que possuía inscritas as datas de nascimento e de morte do futuro cineasta.

Após acordar do sonho gritando, sua família, imaginando que ele estaria possuído, pede ajuda a um padre. E a partir daquele evento Mojica decide fazer um filme como ele jamais havia feito até então, nascendo assim um dos grandes personagens do imaginário cultural brasileiro. E seu criador começaria a ser vinculado ao gênero cinematográfico que o tornou conhecido mundialmente; e no exterior Zé do Caixão se torna Coffin Joe.

Filmografia (principais títulos*):

– (1958) A Sina do Aventureiro

– (1964) À Meia-Noite Levarei Sua Alma

– (1967) Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver

– (1968) O Estranho Mundo de Zé do Caixão

– (1970) O Despertar da Besta

– (1978) Delírios de um Anormal

– (2008) Encarnação do Demônio

* A seleção da filmografia acima é totalmente parcial e feita por um fã.

À Meia-Noite Levarei Sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967) iniciaram a sua Trilogia do Terror que se completou somente no ano de 2008 com a produção de Encarnação do Demônio. No documentário Horror Palace Hotel, dirigido por Jairo Ferreira (1978) vemos uma pequena amostra das dificuldades que Mojica teve ao tentar finalizá-la ainda na década de 70, devido à censura do governo ditatorial brasileiro instalado em 1964.

Mas não foi somente o governo desse período, que inclusive chegou a prendê-lo em certo momento, que dificultou a continuidade da sua obra (sua missão, como ele diz) que completa – levando-se em conta os seus primeiros filmes mudos – incríveis setenta anos neste 2015. A Igreja também usou da sua influência, especialmente no interior do país, para disseminar um boicote à sua obra, por considerar seus filmes pornográficos ou indecentes. Parodiando o próprio Zé do Caixão: “Você não aceita o Terror porque o Terror é você!”.

Além de exercer múltiplas funções em seus filmes, Mojica ainda consagrou a popularidade do seu Zé do Caixão atuando em diversos outros meios, tais como programas de TV (Bandeirantes, Tupi, Record e mais recentemente Canal Brasil), Teatro (com a sua peça Zé do Caixão e Lampião no Inferno) e Literatura (As Crônicas de Terror do Zé do Caixão). Aqui um registro especial: a capa do segundo álbum solo do músico Zé Ramalho – A Peleja do Diabo com o Dono do Céu conta com a participação de Zé do Caixão.

Parte da trajetória do cineasta será revivida através da série Zé do Caixão que estreia neste segundo semestre de 2015 no canal fechado de TV Space. Elaborada a partir da biografia Maldito: A Vida e o Cinema de José Mojica Marins, o Zé do Caixão (escrita por André Barcinski e Ivan Finotti), ela trará no papel-título o ator Matheus Nachtergaele, e terá direção de Vitor Mafra. Esse mesmo livro, de 1998, também deu origem a um documentário lançado em 2001, co-dirigido pelos próprios autores da obra: o filme se chama Maldito: O Estranho Mundo de José Mojica Marins.

Sobre o Autor

Titi Gomez Já estive atendente de vídeo-locadora, ator, educador de uma creche, escritor, barman... Sou chegado em trecos DIY e tattoos... Go Vegan!

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