Cabrito: O primeiro curta-metragem de uma trilogia brasileira de terror

O curta-metragem Cabrito (2015), um projeto autoral do cineasta Luciano de Azevedo, se mostra muito mais do que um simples filme de gênero, ao conectar relações familiares tradicionais brasileiras, trabalho informal, ou mesmo a exploração feminina, tudo isso em seus menos de vinte minutos; o que mostra o seu potencial para além ou aquém do momento exposto ali. Mas esse não é um fato que passe desapercebido pelo seu criador, visto que esta é a segunda parte de uma trilogia que terá a sua parte 3 liberada este ano, e a sua parte 1 em 2017.

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Valendo-se, em sua concepção, de uma fonte em que muitos cineastas brasileiros já beberam ao longo da história do cinema nacional, Azevedo – para desenvolver o seu argumento – partiu de uma passagem do livro bíblico Deuteronômio para estruturar a sua trama, acrescentando a isso a sua visão pessoal de que no Brasil o Terror agrega historicamente características eminentemente regionais, bastando que o interessado apure minimamente os seus sentidos para que saltem aos olhos histórias macabras, sejam na imprensa ou mesmo circulando pelas cidades de maneira insuspeita.

Logo nos primeiros segundos do filme o espectador é transportado para o universo desenhado por seus criadores (que fora roteirizado por Carolina Queiroz, Francisco Franco e Pedro Carcereri, além do próprio diretor), ao ser inundado pelos atabaques e cantos religiosos, ambiente sonoro no qual se apresenta a figura de um vendedor de algodões-doces a caminho da sua casa, após mais um dia de trabalho.

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Esperando por ele está a sua mãe; uma carola que vive a aporrinhar a vida do infeliz rapaz, obrigando-o a um comportamento bizarro, em busca de abastecer a casa da família com alimentos, tanto para o corpo quanto para o espírito. A única salvação para ele é o refúgio junto a uma misteriosa prostituta cujo filho que ela carrega no ventre desperta o interesse da religiosa.

Além de todo o desenvolvimento cuidadoso da sua produção e finalização, o curta conta com atuações majestosas dos atores Samir Hauaji e Sandra Emília Costa, ressaltando um apurado e raro trabalho nesse quesito, que foi conferido não somente no Brasil, visto que Cabrito já passou por um circuito internacional de festivais, em países como México, Austrália, Uruguai, Escócia, EUA, além de outros tantos no Brasil. Visibilidade – ou, no caso, audibilidade – também para as canções que compõe a trilha do curta, com pérolas do cancioneiro brasileiro de raiz, como Chorando ao Pá da Cruz (de Elizeu Ventania), A Moça que Dançou com o Diabo (de Vieira e Vieirinha) e Filho do Diabo (Irmãos Divino).

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Fruto de uma cena cultural que parte da cidade mineira de Juiz de Fora, conectando-se com os grandes centros produtores e consumidores nacionais, o curta metragem de Luciano de Azevedo foi co-produzido pela Old Man Filmes e pelo Inhamis Studio e teve finalizações em DVD e em VHS. Este último, um presente para os cinéfilos que presenciaram a febre desse formato no Brasil dos anos 70 aos 90.

Sobre o Autor

Titi Gomez Já estive atendente de vídeo-locadora, ator, educador de uma creche, escritor, barman... Sou chegado em trecos DIY e tattoos... Go Vegan!

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