“Um Drink no Inferno” completa 20 anos

O filme Um Drink no Inferno (From Dusk Till Dawn – EUA) – lançado há exatos vinte anos atrás – não demorou muito para se transformar em uma cultuada obra (gerando duas sequências, um vídeo-game e uma série de TV), especialmente pelo fato de ter saído da mente de dois dos mais consagrados diretores contemporâneos: Robert Rodriguez (diretor deste longa-metragem) e Quentin Tarantino (o seu roteirista).

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O Roteiro

Na trama, os irmãos Seth e Richard Gecko estão sendo perseguidos por forças policiais após um assalto a banco que deixara inúmeras vítimas. A sua única salvação é atravessar a fronteira dos EUA com o México, onde um contato chamado Carlos receberá a sua parte no roubo e dará proteção à dupla de bandidos. Porém, rumo ao local combinado eles se deparam com a família de um pastor e seu motorhome, e fazem todos de refém.

Em um bar no meio do nada que aparentemente é um ponto de encontro de motoqueiros e caminhoneiros, chamado Titty Twister, os Gecko devem esperar até o amanhecer, quando Carlos chegará com os seus capangas. Mas nesse meio tempo muita bebida, dançarinas exóticas e pancadaria distrairão a todos até o momento em que será revelada a real utilidade do local, e quais são os seus verdadeiros frequentadores.

O Elenco

Ao melhor estilo dos “irmãos” Rodriguez/Tarantino, Um Drink no Inferno reúne um elenco pouco provável em uma trama menos provável ainda. Contando com nomes de peso como George Clooney, Harvey Keitel, Juliette Lewis e Salma Hayek, é a metade menos “mainstream” do seu elenco que rouba diversas das cenas, com os atores Danny Trejo (de Machete), Fred Williamson (astro do movimento Blaxploitation), John Saxon (de A Hora do Pesadelo) e Cheech Marin (em tripla aparição).

Destaque ainda para as atuações de Quentin Tarantino e Tom Savini; dois profissionais que são reconhecidos mais por seus trabalhos atrás das câmeras (embora eles tenham em seus currículos mais de trinta e mais de sessenta obras, respectivamente, como atores). Savini, para os mais desavisados, é um dos grandes mestres da maquiagem e dos efeitos especiais dos últimos quarenta anos no Cinema, tendo sido o responsável pela criação da maquiagem do primeiro Jason Voorhees no filme Sexta-Feira 13 (o original, de 1980).

As Armas Especiais

Com todos os seus detalhes e curiosidades, Um Drink no Inferno ainda se destaca em um quesito difícil de se competir no universo dos filmes de Horror/Terror: as armas especiais; sejam as dos bandidos ou as dos mocinhos das histórias. Em um panorama em que se sobressaem as garrras de Freddy Krugger, a faca de Michael Myers, o facão de Jason e as serras elétricas de Ash Williams ou de Leatherface, somente os fortes – e bem armados – sobrevivem.

Mas o sucesso do filme de Rodriguez nessa área não se deve a um único objeto, mas a um conjunto completo de armas; e aqui está a sua grande sacada. Ao posicionar o grupo de sobreviventes na batalha principal que acontece rumo ao raiar do dia no Titty Twister, os produtores do filme reuniram algo que dificilmente se vê em outra obra do gênero. Nas mãos dos personagens Jacob Fuller, de seus filhos Kate e Scott, e de Seth Gecko são colocadas armas que fizeram do quarteto um símbolo relembrado pelos fãs da obra.

Jacob, o pastor cuja fé está em crise, constrói com uma espingarda adaptada e um bastão de beisebol uma cruz que ataca seus inimigos em duas frentes; Kate, por sua vez, usa uma eficiente besta de repetição e seu irmão Scott uma espingarda de brinquedo municiada com água benta. Mas é Seth Gecko que constrói a mais chamativa das armas do grupo, acoplando a uma velha britadeira uma estaca que faz o objeto matador de vampiros catapultar as suas potencialidades fálicas.

A “Teoria Quentin Tarantino”

Os fãs de Rodriguez e Tarantino sabem que em seus filmes – especialmente os mais sanguinolentos deles – muitas referências são feitas através do resgate de personagens de outras de suas próprias obras, ou mesmo do resgate de muitos atores que começaram a ver as suas carreiras de sucesso entrar em uma espiral descendente; o que torna os filmes desses dois diretores um prato cheio para teorias e suposições.

Particularmente em relação aos roteiros de Tarantino muito se fala a respeito da colcha de retalhos formada por detalhes de diversos dos seus textos, criando um único universo que englobaria praticamente toda a sua filmografia. E que isso já teria se iniciado lá atrás, mesmo quando ele era apenas um candidato a diretor de Cinema tentando vender os seus primeiros roteiros como Cães de Aluguel (Reservoir Dogs – 1992) e Amor à Queima Roupa (True Romance – 1993).

E, nesse sentido, Um Drink no Inferno possui um papel importante na teoria “tarantinesca” ao conectar alguns dos seus personagens a outras obras escritas, mas não necessariamente dirigidas, pelo diretor/roteirista. Um bom exemplo de uma “tese” a respeito do assunto pode ser apreciado através do curta-metragem brasileiro Tarantino’s Mind, estrelado por Selton Melo e Seu Jorge, que dá algumas pistas de onde realmente possam estar essas conexões de diversas de suas obras.

Sobre o Autor

Titi Gomez Já estive atendente de vídeo-locadora, ator, educador de uma creche, escritor, barman... Sou chegado em trecos DIY e tattoos... Go Vegan!

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